Sunday, December 08, 2013

Facebachianas, uma variação (4 dez. 2013)

Um escritor sempre é um escritor, ainda que fale sobre teoria. Thomas Mann anda conquistando espaço em meu coração. Dia desse vou cobrar a querida dona Janete Fiori as aulas de alemão pós-estadia em terras bárbaras.
Já estava certo que iria fazer uma resenha básica sobre "O que é Arte?", de Tolstoi. Coisinha simples, porque talento está meio raro no meio de tanta necessidade de escrita. Mas então, pego por acaso (melhor dizendo, por erro: era para pegar um xerox, mas pego outro) um texto não obrigatório (também possibilidade para resenha) do primo Thomas Mann, "Goethe e Tolstoi: fragmentos sobre o problema da humanidade", e penso: "ah, só vou ler o primeiro trechinho que é curto, no ônibus, não custa nada. Pode ser legal ler alguma coisinha sobre o velho do rio e o alemão das alturas". E me deparo com isso:

STOETZER

"No início do nosso século, ainda vivia em Weimar um homem de nome Julius Stoetzer, professor de profissão. Ainda estudante, um ginasiano de dezesseis anos de idade, morava com o dr. Eckermann sob o mesmo teto, a apenas alguns passos da casa de Goethe. Ao lado de um colega de escola, que morava junto, Stoetzer às vezes vislumbrava, com o coração batendo, um reflexo e a sombra da figura do ancião, quando este se sentava à janela. Animados pelo desejo de vê-lo uma vez de perto, os jovens se dirigiam ao seu companheiro de residência e pediram-lhe muito que lhes arranjasse, de algum modo, esta graça. Eckermann era amável por natureza; levou os rapazes, num dia de verão, por uma porta lateral, para o jardim da famosa casa, e ali ficaram na sua angústia, à espera de Goethe, que para seu espanto realmente apareceu. Num robe claro - provavelmente era o roupão de flanela que conhecemos - que usava naquela hora, avistou os jovens e deles se aproximou. Cheirando a água-de-colônia, com as mãos naturalmente às costas, a barriga saliente e cara de síndico de prefeitura, atrás da qual, como foi testemunhado, se escondia o embaraço, ficou parado na frente deles e perguntou-lhes os nomes e as ambições - provavelmente tudo ao mesmo tempo, o que, quando assim acontecia, parecia severo e difícil de responder. Ouvindo os jovens balbuciar, o velho aconselhou-os a ser aplicados nos estudos, o que se pode traduzir da seguinte maneira: em lugar de papar moscas por aqui é melhor se ocuparem com tarefas escolares - e continuou andando.

Assim ocorreu - foi no ano de 1828. Trinta e três anos depois, a um hora de tarde, Stoetzer, que neste ínterim se tornara professor de escola secundária, capaz e amorosamente dedicado à sua profissão, ia começar a aula na segunda classe, quando um aluno enfiou a cabeça na porta e anunciou que um estranho desejava ver o Sr. Stoetzer. Este estranho entrou então, sem mais nem menos. Era bem mais jovem do que o professor, com uma barba cheia, não muito espessa, com salientes ossos malares, pequenos olhos cinzentos e um par de rugas entre as sobrancelhas escuras. Não se apresentou e foi logo perguntando quais as matérias das aulas daquela tarde; e quando soube que eram história e depois língua alemã, achou excelente e disse que já havia visitado escolas da Alemanha Meridional, da França e da Inglaterra e agora gostaria de conhecer as da Alemanha Setentrional. Falava como um alemão. Todos deviam considerá-lo um professor, baseados nas versadas e interessantes perguntas e declarações que fazia, enquanto anotava constantemente algo na sua agenda. Assistiu à aula. Depois que as crianças escreveram nos seus cadernos um ensaio, uma carta sobre algum tema, o estranho pediu para levar consigo as 'composições' e guardá-las, alegando que seriam de grande interesse para ele. Isso Stroetzer achou muito ingênuo. E quem indenizará as crianças pelos cadernos. Weimar era uma cidade pobre... Expressou-se cortesmente neste sentido. Mas o estranho respondeu que isso podia ser solucionado, e saiu. Stroetzer chamou o diretor À classe. Algo extraordinário, disse ele, havia ocorrido ali. E ele tinha razão, se bem que só mais tarde tenha compreendido bem quanta razão tinha em enviar esse recado. Pois naquele instante para ele não significava muita coisa, quando o estranho, com um pacote de papel de escrever debaixo do braço, voltou e mencionou seu nome a ele e ao diretor: "Conde Tolstoi da Rússia". - O Professor Stoetzer viveu ainda muitos anos e teve bastante tempo para saber a quem conhecera naquele dia."

O trabalhinho burocrático que deveria ser escrito hoje fica confuso, tenho de ler o resto do textão de Mann até o fim. Mann constrói o texto teórico de maneira tão linda que me rendo a ele. O próximo tópico é sobre a conjunção "e" que utiliza no título, que pode estabelecer uma relação hierárquica, mas no texto, ele explica, é realmente de equidade. Mas que tipo de equidade? Por que não "Goethe e Schiller" ou "Tolstoi e Dostoievski"? Como ele trama o texto depois disso é coisa admirável de se ver. Pensador sério, mas não sisudo. Um bom crítico deve ser um escritor (apesar de nem todo escritor ser um bom crítico).

A mim resta a admiração e a leitura. E ainda a pergunta: o que escrever depois de ler texto tão bom? Dá vontade de, ao terminar de ler, dar um pulinho no bar ao lado e tomar uma cerveja. Depois chegar em casa e escrever um e-mail muito doido para o professor dizendo sobre a experiência da incapacidade de produção depois de ler coisa tão bela. Mas como ele vai aceitar tal argumento se é necessário enfiar a nota, dois números exatos, lá no Júpiter da USP? E aí lembro um continho do meu amado Galeano sobre o maravilhoso Juan Rulfo:

"Juan Rulfo disse o que tinha para dizer em poucas páginas, puro osso e carne sem gordura, e depois guardou silêncio. Em 1974, em Buenos Aires, Rulfo me disse que não tinha tempo para escrever como queria, por causa do trabalhão que tinha em seu emprego na administração pública. Para ter tempo precisava uma licença e essa licença tinha que pedi-la aos médicos. E a gente não pode, me explicou Rulfo, ir ao médico e dizer: 'Me sinto muito triste', porque por essas coisas os médicos não dão licença.".

E nem os professores...

Facebachianas, uma variação (8 dez. 2013)

Um personagem de Kafka, é como ele se sentia enquanto mexia os dedos da mão esquerda, tocando teclas desalinhadas pelo ar. Eu pensei: “sim, o desamparo dos personagens, Kafka nos deu isso”. Fiz um comentário-chavão, totalmente esperado: “suas mãos já estão virando patinhas”. Imaginei a barata se esquivando embaixo do balcão. E por que o Samsa? Havia errado, naquele momento comia um chapado e um pingado com o artista da fome.

O artista: “isso, estou fazendo paraempatias, posso acreditar que elas, apesar de não ter ideia do que sejam, é algo possível e bom de ser feito”.

“Tem patinhas” vira “paraempatias” no estômago do artista. Deu vergonha de explicar que havia dito “tem patinhas” e só respondo “acho que não existe a palavra ‘paraempatias’”. O artista: “mas é possível dela existir, acabei de fazer paraempatias”.

Entro na jaula do artista da fome para lhe fazer companhia. Enquanto termino o chapado, ele busca um alimento que talvez o empanturre como a todos os outros.

A jaula é o melhor lugar para a meditação.

(para-)*
v
el.comp.
1 = proximidade; oposição; além; defeito; semelhança: parente; paradoxo; parapsicologia; paraplegia, paradidático.

(em.pa.ti.a)*
sf.
1 Psi. Experiência pela qual uma pessoa se identifica com outra, tendendo a compreender o que ela pensa e a sentir o que ela sente, ainda que nenhum dos dois o expressem de modo explícito ou objetivo.
2 Capacidade de compreensão emocional e estética de um objeto, ger. de arte (um quadro, livro, filme, p. ex.).
3 Nas inter-relações pessoais e sociais, capacidade de alguém de se ver como os outros o veem, de ver outrem como os outros o veem e também como ele mesmo se vê.
[F.: Do gr. empátheia, pelo ing. empathy. Cf.: simpatia e antipatia.]

* Dicionário Aulete

Facebachianas, uma variação (8 dez. 2013)

Nunca - apesar das idiossincrasias de Tolstoi, o meu Velho do Rio - o livro "O que é arte?" foi tão atual em alguns pontos. ("Nunca" é um exagero estilístico.) Estes tempos fui a uma exposição do Sesc da qual no livro de assinaturas havia um campo para colocar a renda pessoal. Fiquei bastante incomodada com aquilo e obviamente era um campo de vazios, piadas ou mentiras. Mas então perguntei às pessoas que estavam trabalhando e perto da lista o porquê de ter que preencher renda. Eles me disseram que era alguma decisão do Sesc de colocar aquilo por lá, mas não tinham ideia do motivo. Um deles ainda completou: "eles devem querer saber quem vem ver arte assim. Difícil gente que não é rica gostar de arte mais difícil. Eu mesmo não entendo quase nada". Falei que poderia ser costume, um aprendizado. Tolstoi me condenaria. Para ele, a arte deve ser um sentimento sincero que o artista consiga transmitir (na tradução que eu acho que está tosca, é dito "contaminar") a uma pessoa e ela seja capaz de compartilhar esse sentimento com outras também. Mas essa transmissão, apesar das variações culturais, atingiria todas as pessoas, independentemente da classe social. No livro, há mais que isso e há coisas que não concordo com ele. Mas quando a gente pensa na arte contemporânea e nisso que a professora do texto abaixo falou, concluo que estou certa de deixar o Velho do Rio começar a tomar conta do monte da estante "livros que devem ser lidos e relidos".

Aula de literatura na Letras há alguns anos.

Professora: "A evolução do gosto literário pode ser comparada com a evolução do paladar. Quando crianças, gostamos de alimentos doces, como danoninho, depois evoluímos até provar sabores refinados como escargot e caviar, entendem?"
[longo silêncio na sala, com todos os alunos segurando o riso]

Professora indignada: "Vocês NUNCA comeram escargot e caviar? Não acredito, gente! Vocês precisam provar!!!"

Aluno: "Nós comemos no bandejão por R$1,90, professora."

Professora: "Aí fica difícil."

Saturday, December 07, 2013

Facebookianas HS (4 jul. 2013)



Hoje vi uma destas aberrações na Ermano Marchetti, perto de uma pracinha que parece aquelas que encontramos no interior de São Paulo. E veio então na cabeça:

Estufa

Transparência tão inútil
em um cidade de ausências
e não orquídeas



Facebookianas HS (6 ago. 2013)

Quando alguém termina cumprimentos descompromissados e uma conversa de corredor com a pergunta "E como está Fulano(a)?", e Fulano(a) é uma pessoa que gosto muito, sinto-me tão feliz por ser aquela que convive com Fulano(a) e sabe como ele(a) vai que fico como um passarinho que vê o primeiro raio de sol da manhã. Digo apenas "Está bem", mas sinto quase coceira na língua em completar com "vez ou outra voa comigo em demorados flanares entre as palavras perdidas entre as noites e as manhãs".

Facebookianas HS (22 ago. 2013)



Lembro-me de uma vez que, folheando uma revista feminina, encontrei a atriz global Lavínia Vlasak fazendo uma propaganda da Boticário de um hidratante para a pele. Algumas páginas depois, pude ler a mesma Lavínia em uma nota, agora como "ela mesma", em uma pequena entrevista dizendo que só usava produtos Lancôme para hidratar a pele. Escrevi um e-mail gigantesco para a Boticário na época, e não me deram nenhuma resposta.

Mas, a partir desse episódio, nunca mais gastei dinheiro comprando uma revista feminina (e deixei de comprar produtos da Boticário). Senti-me uma idiota, e a percepção de coisa sem valor, por não ser genuína, aflorou no meu olhar em relação ao que é vendido nessas publicações, em sua grande maioria.

Hoje ouvi uma pessoa querida lamentando que em sua época de estudante não havia tantas mulheres bonitas com há em determinado lugar que ela frequenta: "agora parecem modelos, poderiam tirar fotos para revistas. Na minha época, eram mais feinhas". Fiquei meio ofendida por saber que provavelmente me encaixaria no grupo daquelas estudantes tidas como feinhas em comparação aos peitos de silicone, tratamentos contra celulite, três horas de academia por dia, embranquecimento de pele, tatuagens estratégicas e dedo na garganta após as refeições da beleza cultuada nos anos 2010.

Pensei que é muita pressão sobre as mulheres. E ainda é preciso se dar bem profissionalmente, cuidar da casa, cuidar da saúde e inspira, expira, inspira, pira por fim. A insegurança toma conta do corpo e da alma.

Tudo isso para dizer que gostei muito do artigo indicado pela Júlia Reyes sobre revistas femininas. Realmente elas são monotemáticas, e criam imagens de mulheres monotemáticas, artificiais, fakes. Refletindo sobre o comentário daquela pessoa, pensei que, mesmo estando no campo das meninas meio estranhas, não sendo aquela que "quebra pescoços" pelas ruas, eu consegui várias coisas (e tive conquistas) por "nadar bem" no mar da narrativa.

Mais ainda: saquei que não sou a tal "meio estranha", mas que há mulheres diferentes, que atuam de maneiras diferentes no mundo. Só isso. E o incômodo se dá porque tudo tem de ser igual para ser cool, para ser belo. Parece haver um trabalho constante para acabar com a diversidade e padronizar grupos de diferenças que deram certo (que geram um mercado consumidor). Enquanto a sociedade está ainda nos gregos em muitos aspectos, a arte circula pelo campo do diverso e do experimentalismo há tempos. É preciso abrir o olhar para a vida, para as pessoas.

Facebookianas HS (5 set. 2013)

Diálogos simples (5 de setembro de 2013)

Ela me trazia muitas lembranças: há dez anos nos conhecemos em um momento feliz da vida, cheio de música e palco. Hoje estávamos separadas por três mesas, no mesmo lugar daquela época. Resolvi deixá-la em paz, uma mulher lendo não fica neste mundo. Peguei minha sopa e, presa entre frases da programação do Sesc e raptada por memórias que cortavam a leitura, fui engolindo cada colherada, beliscando o pão. À mesa, estranhos todos juntos. “Alguém está aqui neste lugar?”. “Com licença”, “tchau”. Outros simplesmente segurando a bandeja com restos.
“Posso me sentar?”. “Sim, não tem ninguém aí.”. Levanto os olhos e a vejo. “Você! Quanto tempo?! Quer algum guardanapo?”. Verifiquei se minha boca estava suja e entendi que se tratava de gentileza, coisa de gente boa. “Oi! Veio fazer algo no Sesc?”. “Coral”.

– Como está a vida? Tocando muito?
– Ah, resolvi fazer outra faculdade. Não restou nada da música. Lá ficam meus instrumentos pegando poeira, enquanto trabalho, estudo, vou lá, volto cá.
– Está casada?

Ela sempre me perguntava isso quando a encontrava. Nunca entendi direito, mas parece que ela tinha o sangue de Cassandra. Hoje foi a primeira vez que dei esta resposta:
– Nós nos separamos. Mas foi tudo bem amigável, enquanto estávamos junto foi muito bom.
– Ah, que pena... O bom é que foi tranquilo.

Pensei que uma separação é tudo, menos tranquila. Eu sabia disso, ela também. Nós nos olhamos e por um tempo: ...

– Sabe, estava folheando um jornal e vi que teve uma pane nas esteiras da linha Amarela de metrô, ela acelerou e houve até quem tenha se machucado. Fiquei assustadíssima! Imagina, demorei um tempão para começar a usar aquela linha.
– Meu medo maior é saber que aquilo não tem condutor, é tudo computadorizado. A história do trem que bateu e machucou algumas pessoas, ainda que tenha sido uma batida fraca, é pior. Falta de controle humano – disse.
– Não gosto de nada de computador mandando. Quando usei aquilo precisei imaginar um velho condutor de trem.
– O engraçado é que a gente se acostuma com a estranheza. Como alguém fica tranquilo com algo de 700 quilogramas circulando com motor por aí? Os carros que concorrem com a nossa máquina frágil. E o avião? Aquilo é assustador.

Um moço senta ao lado dela, cumprimenta como se fosse algum conhecido e ela retribui sorrindo: “fique à vontade, pode sentar”.

– Criança não tem medo. Vai em balão, montanha-russa, vai em tudo – ela fala enquanto vê um garotinho de uns dois anos ao nosso lado. – Brilho nos olhos, destemidas. E perdem tudo depois.
– Virei uma conservadora em relação à integridade de meu corpo. Se acho que a possibilidade de me quebrar ou me machucar é grande, nego a aventura. A máquina-corpo ganha importância quando a gente se dá conta de que está começando a perdê-la, que ela existe com todas as suas dores, manchas e peso.

Toca a senha de um lanche pedido por ela. Duas fatias de pão, três de tomate e enormes pedaços de queijo branco.

– É muito pra mim. Cada quilo que engordo agora é tão difícil de perder. Até ontem não tinha pança, hoje a blusa fica apertada, há uma barriga no meu corpo que sempre acostumei magro.
– Senti que a passagem do tempo, quase escalonada de dez em dez anos, faz com que o nosso corpo mude. Fiquei completamente pirada na virada da fase dos 20 anos para os 30. Era fininha, ainda que comesse como um leão, não sabia que tinha corpo, ele simplesmente ficava invisível para existir somente os prazeres que ele proporcionava. Então vendaval dos 30 levou os lençóis do varal. Até grande parte das doenças bizarras surgem nessa idade! Depois do que passei, estou preparada para as outras mudanças. É assim mesmo, um processo natural.
– Eu sempre me choco. Fico abismada com a velocidade dessas mudanças. É 50, é 60 e nos 70 aí deslancha mesmo. Toda hora há algo novo, algo para que eu não me reconheça, que sempre achei impossível de acontecer comigo... olha o menininho aí de novo, criança tem o olhar.
– Sinto falta do contato com elas. Sinto falta do tempo da infância dos meus sobrinhos. Olhar novo, enxerga aquilo que a gente deixou de ver ou nunca viu. Ficava um tempão conversando com eles quando eram pequenos. A família achava que era para distraí-los. Mentira! A conversa era brilhante e agradável. Navegam nos assuntos mais complexos com naturalidade, frases simples e imaginação vulcânica.
– Eu fui casada, mas não tive filhos. Tenho sobrinhos-parentes e sobrinhos por afinidade, filhos de amigos e amigas que eu e meu marido ajudamos a criar. Aquilo de dar de comer, dar bronca na frente dos pais, abraçar, trocar a fralda, limpar as unhas. Encontro com um deles na rua e reconheço os olhos quando me veem. Seu semblante sempre vai ser aquele de quando era criança, o amor faz voltar lá, naqueles olhos. E a gente se abraça. É tão gostoso.
– ... vejo isso também nos meus sobrinhos. Bem, não são filhos das minhas irmãs. Sempre sobrinhos, ainda que por afinidade, né? Ela agora está uma moça, e ele um compridão. Os dois lindos, sempre o olhar. É verdade.

Sobraram as bandejas vazias, hora de ir.

– Você vai pra onde, dona Fernanda?
– Vou fazer um xixi e depois pra Rego Freitas.

Queria ir junto com ela, mas não tive coragem de falar. Conversar mais um pouco, coisa de gente que anda muito sozinha e encontra alguém que gosta.

– Ah... Rego Freitas?
– Pro Sindicato dos Jornalistas.
– Você é do sindicato, então? – pergunta besta de quem quer cutucar mais a vida do outro que começa a se mostrar mais interessante do que o imaginado.
– Não, não sou jornalista. É homenagem ao ..., um preso político da época da ditadura. Agora estão dando nome de ruas com o nome de presos da ditadura.

Deixei de perguntar qualquer coisa. Em seus 70 e poucos anos considerei que ela deve ter passado por muita coisa que ainda não tenho direito de saber. Nos despedimos.

Chego em casa e releio Eclesiastes 3 postado por um amigo querido. Podia ter me lembrado do Machado de Assis, de questões filosóficas, mas só vem o olhar de Fernanda.

Facebookianas HS (23 set. 2013)



Acho que todo leitor é essencialmente um voyeur. Penso sobre isso porque li no artigo abaixo um questionamento sobre a validade de ler as cartas de Joyce para a esposa Nora. Há algo que não pode ser encontrado na obra dele, e que podemos encontrar nas cartas, que seja importante para a leitura da obra? Existe uma ética (e questões legais) na divulgação de cartas pessoais. Mas ainda que a resposta seja não, que leitor nega o olhar no buraco da fechadura? Umberto Eco fez seus monges olharem para esse buraco coberto pela moral em "O nome da rosa", e os matou (ninguém sai incólume dessa espiada - e aqui é inevitável lembrar as crianças que entram sem bater no quarto dos pais...).

Para deixar claro, não li "Ulisses" ainda. É tão chata a áurea que botam sobre alguns livros que a gente fica com medo da aproximação: referências a não sei quantas línguas, a Homero (que li a primeira vez só por causa do Joyce), a isso, a aquilo. Ninguém fala de prazer. Há sacanagem lá dentro, vai ser legal a leitura. Somente agora algumas pessoas falam isso baixinho para não passarem por sacanas ou burras. Ninguém diz, por exemplo, que a gente vai rir muito enquanto estiver lendo "Dom Quixote" (e depois ficar meio melancólico, mas as coisas são assim mesmo) - só vem aquele papo de "ser importante". Sim, nesses livros há aspectos importantíssimos de contextualização histórica, estilo, relevância para a literatura de um época, etc. e tal. Mas o leitor pede saída do mundo como conhecido, pede sentimentos (ainda que mostrados pela falta dele), pede o choque (ainda que seja aquele sentido somente depois de um tempo e tão bem trabalhado por Tchekhov). Raios, ler algo porque fulano é o arauto da literatura, o livro é essencial e "como você ainda não leu tal livro?" são argumentos chatos e fracos! As pessoas vão assistir a novela no sofá confortável ou ler livros por elas mesmas, que encantem por algo quase inexplicável.

Achei linda a história do início da correspondência entre Joyce e Nora: "The letters are by turns pornographic, erotic, romantic, poetic, and often downright funny, and they were written for Nora’s eyes alone in a correspondence initiated by her in November of 1909, while Joyce was in Dublin and she was in Trieste raising their two children in very straitened circumstances. Nora hoped to keep Joyce away from prostitutes by feeding his fantasies in writing, and Joyce needed to woo Nora again—she had threatened to leave him for his lack of financial support. In the letters, they remind each other of their first date on June 16, 1904 (subsequently memorialized as “Bloomsday,” the date on which all of Ulysses is set). [tradução ruinzinha e meio livre, Tha Is, help me!: "as cartas são, algumas vezes pornográficas, eróticas, outras românticas, poéticas e sempre bastante divertidas. Elas foram escritas para serem lidas somente por Nora, em uma troca de correspondência iniciada por ela em novembro de 1909, quando Joyce estava em Dublin, e ela em Trieste cuidando dos dois filhos deles em condições muito precárias. Nora desejava manter Joyce afastado das prostitutas alimentando suas fantasias por escrito, e Joyce queria conquistar novamente Nora — ela havia ameaçado deixá-lo por ele não lhe dar apoio financeiro. Nas cartas, recordam um ao outro o primeiro encontro em 16 de junho de 1904 (posteriormente imortalizado como "Bloomsday", a data na qual se passa todo 'Ulisses')"].

Tudo isso para finalmente dizer que fiquei com vontade de ler "Ulisses" e que já ando lendo as cartas dele para ela (as dela para ele são raras). Cartas sujas, pesadas, pornográficas e com muitos apelidos e coisas divertidas. Assim deve haver outras, escondidas nos criados-mudos. E eu, como boa voyeur, ando prestes a espiar a fechadura daquele dia 16 de junho.

Facebookianas HS (14 out. 2013)

À tarde, fui à São João, número 473. Lá vive um esplendoroso Olido que já foi, caiu e agora se reergue aos poucos com nome de galeria. O documentário começaria somente às 15h00, então resolvi ver a exposição sobre os palhaços no Brasil e descobri que em Olido reside o Centro de Memória do Circo – por aqui, prestem atenção, teve até faquir: o famoso Silki, que ficou 105 dias sem comer, em uma cama de pregos e rodeado por serpentes. 

Em uma cadeira perto da exposição, fiquei pensando na vida enquanto aguardava para abrirem o acesso à antessala da Sala Olido de cinema. Assistia ao funk lá fora. Pessoas, pelos cantos da janela, chegavam dançando a música gritada por alto-falantes de um carro, e eu gostei daquilo. Queria dançar funk também, por apenas um momento, mas queria. Ter uma bundona e rebolar no meio da rua. Descompromissada: “Respeitável público, hoje tem palhaçada!”.

A hora do documentário quase chega e eu corro para a antessala. Subo as escadas e, pelo espelho, percebo que o público é diferente daquele que eu estou acostumada, povo de Cinemateca com roupas moderninhas. Muitos homens e pouquíssimas mulheres. Poucos jovens. Roupas surradas, olhos cansados, gente esparramada pelas poltronas. Ingresso a 1 real inteira e a 0,50 centavos a meia para o documentário “A transformação do mundo em música”, do Werner Herzog, sobre os preparativos e ensaios para os festivais Richard Wagner em Bayreuth, Alemanha. Raios, fiquei chocada! A burguesa aqui ficou embasbacada de o povo querer ver Herzog e, mais especificamente, Wagner.

Esperei quase todo mundo entrar enquanto decidia se entraria naquele lugar que já me parecia sórdido. Olhava o ingresso que ia de uma mão a outra: resolvi entrar com uma senhora, como se estivesse com ela. Sentei na última poltrona, perto da saída, e coloquei a bolsa ao meu lado (garantindo que ninguém facilmente ficaria ao meu lado). Pouco antes de a sessão começar, entra o Fofão, personagem conhecido na Augusta. Um transformista que colocou silicone de baixa qualidade nos anos 1980 e, por isso, tem o rosto marcado, grandes bochechas (essa é a lenda que conheço). Sentou com a seriedade e a delicadeza de um Lord na primeira fileira, talvez com receio de ser incomodado.

As luzes se apagaram. O documentário começa. Muito se diz da tentativa de desmistificação de Wagner, já mistificando sua obra, e das pessoas que trabalham nas grandes produções que representam cada montagem de qualquer ópera de Wagner. Herzog fala pra câmera com brilho nos olhos. Ele gosta de Wagner, e quer mostrar algo mais. Algumas pessoas saem durante a sessão, não deveria ser o esperado no Olidão. Muitas ficam, há interesse, ainda que grandes trechos de óperas mesclando ensaios e apresentação apareçam por minutos.

O escuro me engloba totalmente e caio nas redes de um ensaio de orquestra de Parsival. O regente sorri enquanto rege. Seu corpo e as expressões do rosto fazem parte da batuta que indica o caráter da música para os músicos. Enquanto isso, cá estava com aqueles homens e poucas mulheres vidrados nas imagens de Herzog e na música de Wagner. Trabalhadores em poltronas como um corpo só que admira uma tela. Os créditos passaram. Levantei-me lembrando de Tolstói. Meu querido velho do rio escreveu sobre a grande obra de Wagner, “Os anéis dos Nibelungos”, ciclo de quatro óperas épicas. Meteu o pau na música, na temática e disse sobre a história: “Tudo isso é tão estúpido e de tal modo semelhante ao que é exibido em barraquinhas de feira que seria oportuno indagar como é que pessoas com mais de 7 anos podem assistir a isso com tanta seriedade bem como milhares de pessoas semicultas podem ficar a olhar e a ouvir toda essa bobagem com piedosa atenção, enlouquecendo de prazer”, mas a crítica maior do meu velho rosseauniano é em relação a todo o aparato e dinheiro que apenas uma obra move e que poderia ser usado para a melhoria de vida da população: “Involuntariamente, pensei num camponês, homem sábio, instruído, respeitável, um daqueles homens realmente religiosos [sim, essa é a “pegada” do Tolstói] que conheço, entre nossos camponeses; imaginava a terrível perplexidade que sentiria um tal homem se precisasse assistir ao espetáculo que eu vira. Que diria ele, se viesse a saber quanto dinheiro se dispendera para aquela representação e vendo aquele auditório, vendo os poderosos do mundo [...] vendo-os imóveis, sentados, a olhar e a ouvir, durante seis longas horas seguidas, aquele amontoado de absurdos?”. E vejo que Herzog conversa com Tolstói em seu documentário, no qual sempre perpassa pelas falas e imagens a grandiosidade das montagens e o árduo trabalho dos trabalhadores que estão por trás daquela engrenagem toda. Os cantores aparecem com suas roupas de dia a dia, de ensaio, os regentes com uma roupa de dormir ou uma toalha no ombro para enxugar o suor, os figurinistas “modernetes” são ridicularizados pelos cantores. Finalmente, o documentário termina com trabalhadores do backstage limpando quilos de areia (ou algo parecido) que ficou no palco após uma apresentação. Uma discussão antiga e recente (temos a Lei Rouanet para não desmentir isso...).

Mas acho que Tolstói gostaria de ter feito parte daquele público de hoje, vendo uma coisa tão boa (e crítica) a um ingresso custando R$ 1,00 e R$ 0,50 (meia-entrada). Se um dia a gente carrega peso, em outro vai lá no Olido, ainda que não haja tempo para um banho ou uma roupa transada. Who cares?, pergunta a alma livre do centro de São Paulo. Nem só de pão, de vinho e de funk no último volume as pessoas se alimentam (também disso, é claro). E hoje foi dia de espetáculo.

Sunday, May 26, 2013

Ana C.

É noite, já tarde. Madrugada. Toco Ana. Ela se foi na Tonelero, mas está aqui. Faz-me companhia, sussurra palavras escritas em meu ouvido esquerdo. Sabe que é aquele em que os sons são mais bem entendidos, o ouvido do entendimento.

Hoje ouvi sua voz com meu ouvido esquerdo. Talvez por isso a Ana apareceu e me disse:

"Depois que desliguei o telefone me arrependi de ter ligado, porque a emoção esfriou com a voz real. Ao pedir a ligação, meu coração queimava. E quando a gente falou era tão assim, você vendo tv e eu perto de bananas, tão sem estilo (como nas cartas). Você não acha que a distância e a correspondência alimentam uma aura (um reflexo verde na lagoa no meio do bosque)?"

Ana Cristina César
 

Sunday, April 14, 2013

Despedida

O texto não é meu, mas queria muito que fosse. Um conto de José Mena Abrantes.

 
DESPEDIDA

Por acaso as casuarinas também estavam presentes nesse ocaso. Passeavam ambos à beira-mar e o momento era de despedida: do sol e deles dois, que também já haviam concluído os seus brilhos. Despedir significava, pois, isso mesmo: não voltar a pedir, ir embora para sempre. Por que razão terminavam sempre assim os mais realizados entendimentos? Não se sabe, ou talvez fosse por causa disso mesmo: pela realização, pelo perfeito completamento das atrações, pela permuta total de afectos, pela cumplicidade e o enigma. Se haviam conhecido em irrepetíveis coincidências e cumprido os inevitáveis ciclos do amor. Para que então adiar o necessário acabamento? Se beijaram pela última vez. Com alguma e dolorosa tristeza, como não podia deixar de ser. Já em contra-luz, as cabeleiras despenteadas das casuarinas lhes confirmaram murmurantes as suas mais assumidas certezas: só mesmo o verdadeiro amor não traz a felicidade!

Wednesday, February 13, 2013

Bilhete em uma quarta-feira de Cinzas


Bom-dia, Sol!
Daqui a algumas horas você vai se pôr.
Antes disso, preciso lhe dizer uma coisa:
traga o pão pela manhã.
Pois é, falando nisso
Ouvi dizer na padaria
Que toda gente é pedaço de estrela
― fizeram até pãozinho em forma de estrela,
vendido a R$ 3,00 a unidade
 
Hoje faz calor e você me prova em grandes gotas de suor
Parece até querer de volta
esse pedaço que um dia foi seu
Reclamo entre sorrisos da temperatura do país tropical
enquanto em um bocado de pele descoberto
sua luz brinca e se refugia, recanto inaudito
Você me olha sem mistérios metafísicos
― insano tempo

O relógio indica 16h30
Debaixo do Sol, nada há de novo
Ainda assim o trinado do uirapuru
encanta a terra fria

Wednesday, February 06, 2013

O estofo dos sonhos

Se a cada pergunta a gente tivesse uma resposta concreta, simples e que não gerasse nenhuma consequência em forma de tempestades – uma rua com um redemoinho e o Deamar, o Sem-gracejo, à toa bem no meio dela (Rosa, lembrei-me de você)  –, a vida teria uma beleza simples e singular.

Mas, curioso, o homem sempre quer dar uma espiada para ver se atrás de uma resposta se esconde outra coisa e outra e talvez um pergunta ainda mais cabeluda do que aquela que gerou a resposta inicial. Nasce a Filosofia, a Psicanálise, os movimentos sociais, as paixões, os ódios, a roda, que gira, que gira... e lá vem o tal redemoinho!
Ah, seu Sangue-d’outro, você nem sabia que homem é bicho que gosta de fazer vendavais. Nem precisaria você ter gasto aquela maçãzinha com um bichinho dentro que Eva comeu atrás da moita. Tudo isso foi sem precisão, isso sim.

Friday, February 01, 2013

Mirada

     E quando imaginava que o tempo da experiência chegara, tudo já havia sido visto e sentido, eis que surge a imagem.
     No espelho, alguém: de quem é esse olhar, de quem? Sorriso refeito, cabelos diferentes. Vejo um batom que há dois anos estava guardado, quase intacto, na boca da estranha.
     Flerto com ela. "Como sou ignorante!", solto em um suspiro. Penso: "Ainda bem, ainda bem".

Wednesday, January 23, 2013

Diálogo(s) ↔ (im)Puro(s)


― Não encosta a mãozinha na parede, querido, muita gente faz xixi aí.

― A gente?

― Não: muita gen-te.

― Ah... a-gen-te, a-gen-te!

― Tira logo a mão daí e anda mais rápido!

 

Saturday, January 12, 2013

Manifesto

          Eu queria escrever algo por aqui, dizer que terminei alguns contos de Tolstói, que fiquei maravilhada com "Falso cupom", uma obra de arte, a oração de Tolstói. Lindo! Ele ganhou minha alma e vou encarar Guerra e paz. Mas antes ele me levou ao Fiódor D. (como contraponto, talvez), e cá estou vivendo as agruras do Yákov Pietróvitch Golyádkin.
          Em uma conversa corriqueira, uma amiga faz uma indagação: "por que os russos escreviam livros tão grossos?". Fiquei pensando sobre isso. Pensando que quando leio bons escritores (que eu gosto, não necessariamente que a crítica curte) eu tenho certeza de que o conteúdo, a forma e a extensão de um livro vem da necessidade, a necessidade do escritor: ele come, caga, dorme, transa (ou não), vê a beleza e a feiura, escreve. E precisa escrever daquela maneira que gera a exaustão ao final, um certo orgasmo, satisfação que alivia e faz um ser humano se entender humano. Não importa se em 2.490 páginas ou em 140 caracteres. E quando a gente lê algo que foi escrito dessa maneira (em minha imaginação é assim), a leitura vai devagar porque sempre há uma parte, uma frase ou trecho, que espanta e faz com que o autor (ou autora) seja xingado, o coração acelere e, nesse ponto, o livro deve ser fechado, entra-se em um estado reflexivo que pode durar horas ou dias, mas não antes de um resmungo e de um muxoxo: "puta que o pariu, assim eu morro de ataque estético da alma, porra!".

Tuesday, January 01, 2013

Velho do rio

          Tolstói pra mim tem a cara da loucura messiânica. Um velho do rio safado voltado para os céus. Peitou as instituições, mesmo quando a idade pede uma razão besta. Vou comê-lo pelas beiradas: primeiro os contos, depois o gigante (estou falando de tamanho mesmo) Guerra e Paz.
          Tirei esse senhor da prateleira e escolhi ficar perto dele neste início de ano: 2013. Será que isso significa algo?

Monday, December 31, 2012

Alice não me escreva

Tão querida Alice:       
 
        Um dia todas precisamos de um senhor Yang. Woody bem sabe disso. Surge aquela dor nas costas, a ausência, o vazio... e então chegou a hora de Yang. Jovens senhoras meio cansadas caminhando para um jardim solar repleto de poções mágicas. Crescer e diminuir, mudar tão rapidamente que tudo parecerá estranho, até não mais ser. Bater na porta e dizer: "olá, aqui mora minha percepção?". E perceber que circularmente ela mora no mundo, já estamos nela. Só é preciso vez ou outra, ainda que não se saiba de que lado ir, ir.
        Mais uma vez, Alice teve de esperar com paciência enquanto a Lagarta acabava de fumar. Em seguida, ela se espreguiçou, se sacudiu, desceu do cogumelo e foi se arrastando pela grama, dizendo enquanto se afastava:
        - Um lado te fará crescer e o outro lado te fará diminuir.
        "Um lado do quê? O outro lado do quê?" - pensou Alice.
        - Do cogumelo, é claro! - disse a Lagarta, como se tivesse ouvido o pensamento de Alice. E sumiu de vista.
        Alice ficou olhando pensativa para o cogumelo por um minuto, tentando descobrir quais eram os dois lados. Como o cogumelo era perfeitamente redondo, ela achou que essa era uma questão muito difícil. Por fim, esticou os braços o mais que pôde em volta do cogumelo e tirou um pedacinho de cada lado.
(Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll, Cosac, p. 59.)
 
        Alice não me escreva, venha me visitar. Traga consigo o Sol, mas não o calor. Também não se esqueça de trazer os maravilhosos sonhos da padaria perto de sua casa. Farei um Earl Grey para nós.

Beijos,
H.

Sunday, December 30, 2012

Uma história da leitura do olho

          Finalmente me deparei com História do olho, de Georges Bataille. A sobrecapa da edição que li, da Cosac, tem a foto da bunda de uma moça, cobrindo um dos olhos do corpo, o ânus, com a mão. Acho estranha aquela capa porque o racho da bunda parece estar sumindo, tornando essa bunda quase assexuada, ela em si quase uma metáfora do olho também, uma forma arredondada. Não sei se isso é proposital, trabalhado com Photoshop, ou uma esquisita característica da bunda retratada.
          Não havia entendido o porquê de eu ter conseguido ler a história do olho, mas continuar negando a prosa do Sade. Há uma familiaridade entre os autores, mas pensava que essa diferente reação em relação a autores com temáticas semelhantes poderia ocorrer talvez por Bataille ser mais soft. De certa maneira, isso não deixa de ser verdade. Contudo, o relato do próprio autor comentando sobre sua obra e a criação dela, no capítulo chamado "Reminiscências" (e também em "Plano para uma continuação da História do olho", "W.-C. Prefácio à História do olho" e "Olho") me fez digerir melhor a narrativa porque definitivamente aquilo era sonho, fantasia, tratava-se de um modo de domar os fantasmas do autor. O analista de Bataille sugeriu que escrevesse seus sonhos eróticos e ideias fixas sem barreiras. Ele fez isso, e isso, de certa forma e como ele mesmo diz, o salvou para a vida. Sade fez isso, mas ele andou como um danado por esta terra até o final de seus dias. Para ele a ficção e a literatura se confundiam.
          Bataille se humanizou quando escreveu sobre si mesmo. A ficção dele ganha dimensão quando surge o autor comentando sobre ela, falando sobre histórias que a mim pareceram até mais interessantes que o própria História do olho. Penso que esse livro, publicado sob pseudônimo até o final da vida do autor, foi a carta ao pai de Bataille, e com isso tudo ganha um sentido imenso.
          Há um ensaio de Roland Barthes, um apêndice da edição lida, que é chato (desculpem-me os linguistas, mas quase dormi com tantos termos da linguística que ele usou simplesmente para dizer coisas que eu havia entendido sem complicação), mas diz uma coisa bastante interessante e que me elucidou sobre a comparação entre Sade e Bataille: a prosa de Sade utiliza mais o encadeamento sintagmático, enquanto a de Bataille é uma linguagem mais paradigmática, adentrando no conteúdo e utilizando metáforas e metonímias específicas para o olho/ovo. Talvez esteja por aqui minha repulsa por Sade, a enumeração, variando alguns fatores como posições, combinações, etc., que ele faz de algo limitado por si: o erótico/pornográfico. Em Bataille eu sinto que sua narração direta transcende o próprio significado do que é dito, e isso me dá mais prazer como leitora.
          Do capítulo "Reminiscências", transcrevo:
 
          Por outro lado, às imagens de minhas obsessões associam-se lembranças de outra natureza.
          Nasci de um pai sifilítico (tabético). Ficou cego (já o era ao me conceber) e, quando eu tinha uns dois ou três anos, a mesma doença o tornou paralítico. Em menino, adorava aquele pai. Ora, a paralisia e a cegueira tinham, entre outras, estas consequências: ele não podia, como nós, urinar no banheiro; urinava em sua poltrona, tinha um recipiente para esse fim. Mijava na minha frente, debaixo de um cobertor que ele, sendo cego, não conseguia arrumar. O mais constragedor, aliás, era o modo como me olhava. Não vendo nada, sua pupila, na noite, perdia-se no alto, sob a pálpebra: esse movimento acontecia geralmente no momento de urinar. Ele tinha uns olhos grandes, muito abertos, num rosto magro, em forma de bico de águia. Normalmente, quando urianava, seus olhos ficavam quase brancos; ganhavam então uma expressão fugidia; tinham por único objeto um mundo que só ele podia ver e cuja visão provocava um riso ausente. Assim, é a imagem desses olhos brancos que eu associo à dos ovos quando, no decorrer da narrativa, falo do olho ou dos ovos, e urina geralmente aparece.
          Percebendo todas essas relações, creio ter descoberto um novo elo que liga o essencial da narrativa (considerada no seu conjunto) ao acontecimento mais grave da minha infância.
          [...]
          Uma noite, minha mãe e eu fomos acordados por um discurso que o doente produzia aos urros, no seu quarto: tinha enlouquecido de repente. O médico, chamado por mim, veio imediatamente. Em sua eloquência, meu pai imaginava os acontecimentos mais felizes. Tendo o médico se retirado com minha mãe para o quarto ao lado, o demente berrou com uma voz retumbante:
          - DOUTOR, AVISE QUANDO ACABAR DE FODER MINHA MULHER!
          Ele ria. Essa frase, arruinando os efeitos de uma educação severa, provocou-me, numa terrível hilaridade, a constante obrigação, acatada de forma inconsciente, de encontrar seus equivalente em minha vida e em meus pensamentos. Isso talvez esclareça a "história do olho".

Tuesday, November 27, 2012

Meditação


       Uma sabedoria quase nada, já nula. Pontiaguda.
       Queria dizer mais duas palavras apenas, mas se calou. Nada poderia acrescentar a estados de ânimo esguios, maleáveis, maldizentes.
       Andou quadras a rir-se de cada pessoa que cruzava. O mundo tomava a forma do desespero e da exaltação. Ria-se, ria-se!

       Em frente a uma pequena fonte escondida entre duas árvores, para e larga seus pés na água. Sob as pálpebras que descansam a estrada passa entre ele e um gigante descampado. Não há carros, pessoas. Só ele. Só.

Lembranças