Sunday, May 26, 2013

Ana C.

É noite, já tarde. Madrugada. Toco Ana. Ela se foi na Tonelero, mas está aqui. Faz-me companhia, sussurra palavras escritas em meu ouvido esquerdo. Sabe que é aquele em que os sons são mais bem entendidos, o ouvido do entendimento.

Hoje ouvi sua voz com meu ouvido esquerdo. Talvez por isso a Ana apareceu e me disse:

"Depois que desliguei o telefone me arrependi de ter ligado, porque a emoção esfriou com a voz real. Ao pedir a ligação, meu coração queimava. E quando a gente falou era tão assim, você vendo tv e eu perto de bananas, tão sem estilo (como nas cartas). Você não acha que a distância e a correspondência alimentam uma aura (um reflexo verde na lagoa no meio do bosque)?"

Ana Cristina César
 

Sunday, April 14, 2013

Despedida

O texto não é meu, mas queria muito que fosse. Um conto de José Mena Abrantes.

 
DESPEDIDA

Por acaso as casuarinas também estavam presentes nesse ocaso. Passeavam ambos à beira-mar e o momento era de despedida: do sol e deles dois, que também já haviam concluído os seus brilhos. Despedir significava, pois, isso mesmo: não voltar a pedir, ir embora para sempre. Por que razão terminavam sempre assim os mais realizados entendimentos? Não se sabe, ou talvez fosse por causa disso mesmo: pela realização, pelo perfeito completamento das atrações, pela permuta total de afectos, pela cumplicidade e o enigma. Se haviam conhecido em irrepetíveis coincidências e cumprido os inevitáveis ciclos do amor. Para que então adiar o necessário acabamento? Se beijaram pela última vez. Com alguma e dolorosa tristeza, como não podia deixar de ser. Já em contra-luz, as cabeleiras despenteadas das casuarinas lhes confirmaram murmurantes as suas mais assumidas certezas: só mesmo o verdadeiro amor não traz a felicidade!

Wednesday, February 13, 2013

Bilhete em uma quarta-feira de Cinzas


Bom-dia, Sol!
Daqui a algumas horas você vai se pôr.
Antes disso, preciso lhe dizer uma coisa:
traga o pão pela manhã.
Pois é, falando nisso
Ouvi dizer na padaria
Que toda gente é pedaço de estrela
― fizeram até pãozinho em forma de estrela,
vendido a R$ 3,00 a unidade
 
Hoje faz calor e você me prova em grandes gotas de suor
Parece até querer de volta
esse pedaço que um dia foi seu
Reclamo entre sorrisos da temperatura do país tropical
enquanto em um bocado de pele descoberto
sua luz brinca e se refugia, recanto inaudito
Você me olha sem mistérios metafísicos
― insano tempo

O relógio indica 16h30
Debaixo do Sol, nada há de novo
Ainda assim o trinado do uirapuru
encanta a terra fria

Wednesday, February 06, 2013

O estofo dos sonhos

Se a cada pergunta a gente tivesse uma resposta concreta, simples e que não gerasse nenhuma consequência em forma de tempestades – uma rua com um redemoinho e o Deamar, o Sem-gracejo, à toa bem no meio dela (Rosa, lembrei-me de você)  –, a vida teria uma beleza simples e singular.

Mas, curioso, o homem sempre quer dar uma espiada para ver se atrás de uma resposta se esconde outra coisa e outra e talvez um pergunta ainda mais cabeluda do que aquela que gerou a resposta inicial. Nasce a Filosofia, a Psicanálise, os movimentos sociais, as paixões, os ódios, a roda, que gira, que gira... e lá vem o tal redemoinho!
Ah, seu Sangue-d’outro, você nem sabia que homem é bicho que gosta de fazer vendavais. Nem precisaria você ter gasto aquela maçãzinha com um bichinho dentro que Eva comeu atrás da moita. Tudo isso foi sem precisão, isso sim.

Friday, February 01, 2013

Mirada

     E quando imaginava que o tempo da experiência chegara, tudo já havia sido visto e sentido, eis que surge a imagem.
     No espelho, alguém: de quem é esse olhar, de quem? Sorriso refeito, cabelos diferentes. Vejo um batom que há dois anos estava guardado, quase intacto, na boca da estranha.
     Flerto com ela. "Como sou ignorante!", solto em um suspiro. Penso: "Ainda bem, ainda bem".

Wednesday, January 23, 2013

Diálogo(s) ↔ (im)Puro(s)


― Não encosta a mãozinha na parede, querido, muita gente faz xixi aí.

― A gente?

― Não: muita gen-te.

― Ah... a-gen-te, a-gen-te!

― Tira logo a mão daí e anda mais rápido!

 

Saturday, January 12, 2013

Manifesto

          Eu queria escrever algo por aqui, dizer que terminei alguns contos de Tolstói, que fiquei maravilhada com "Falso cupom", uma obra de arte, a oração de Tolstói. Lindo! Ele ganhou minha alma e vou encarar Guerra e paz. Mas antes ele me levou ao Fiódor D. (como contraponto, talvez), e cá estou vivendo as agruras do Yákov Pietróvitch Golyádkin.
          Em uma conversa corriqueira, uma amiga faz uma indagação: "por que os russos escreviam livros tão grossos?". Fiquei pensando sobre isso. Pensando que quando leio bons escritores (que eu gosto, não necessariamente que a crítica curte) eu tenho certeza de que o conteúdo, a forma e a extensão de um livro vem da necessidade, a necessidade do escritor: ele come, caga, dorme, transa (ou não), vê a beleza e a feiura, escreve. E precisa escrever daquela maneira que gera a exaustão ao final, um certo orgasmo, satisfação que alivia e faz um ser humano se entender humano. Não importa se em 2.490 páginas ou em 140 caracteres. E quando a gente lê algo que foi escrito dessa maneira (em minha imaginação é assim), a leitura vai devagar porque sempre há uma parte, uma frase ou trecho, que espanta e faz com que o autor (ou autora) seja xingado, o coração acelere e, nesse ponto, o livro deve ser fechado, entra-se em um estado reflexivo que pode durar horas ou dias, mas não antes de um resmungo e de um muxoxo: "puta que o pariu, assim eu morro de ataque estético da alma, porra!".

Tuesday, January 01, 2013

Velho do rio

          Tolstói pra mim tem a cara da loucura messiânica. Um velho do rio safado voltado para os céus. Peitou as instituições, mesmo quando a idade pede uma razão besta. Vou comê-lo pelas beiradas: primeiro os contos, depois o gigante (estou falando de tamanho mesmo) Guerra e Paz.
          Tirei esse senhor da prateleira e escolhi ficar perto dele neste início de ano: 2013. Será que isso significa algo?

Monday, December 31, 2012

Alice não me escreva

Tão querida Alice:       
 
        Um dia todas precisamos de um senhor Yang. Woody bem sabe disso. Surge aquela dor nas costas, a ausência, o vazio... e então chegou a hora de Yang. Jovens senhoras meio cansadas caminhando para um jardim solar repleto de poções mágicas. Crescer e diminuir, mudar tão rapidamente que tudo parecerá estranho, até não mais ser. Bater na porta e dizer: "olá, aqui mora minha percepção?". E perceber que circularmente ela mora no mundo, já estamos nela. Só é preciso vez ou outra, ainda que não se saiba de que lado ir, ir.
        Mais uma vez, Alice teve de esperar com paciência enquanto a Lagarta acabava de fumar. Em seguida, ela se espreguiçou, se sacudiu, desceu do cogumelo e foi se arrastando pela grama, dizendo enquanto se afastava:
        - Um lado te fará crescer e o outro lado te fará diminuir.
        "Um lado do quê? O outro lado do quê?" - pensou Alice.
        - Do cogumelo, é claro! - disse a Lagarta, como se tivesse ouvido o pensamento de Alice. E sumiu de vista.
        Alice ficou olhando pensativa para o cogumelo por um minuto, tentando descobrir quais eram os dois lados. Como o cogumelo era perfeitamente redondo, ela achou que essa era uma questão muito difícil. Por fim, esticou os braços o mais que pôde em volta do cogumelo e tirou um pedacinho de cada lado.
(Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll, Cosac, p. 59.)
 
        Alice não me escreva, venha me visitar. Traga consigo o Sol, mas não o calor. Também não se esqueça de trazer os maravilhosos sonhos da padaria perto de sua casa. Farei um Earl Grey para nós.

Beijos,
H.

Sunday, December 30, 2012

Uma história da leitura do olho

          Finalmente me deparei com História do olho, de Georges Bataille. A sobrecapa da edição que li, da Cosac, tem a foto da bunda de uma moça, cobrindo um dos olhos do corpo, o ânus, com a mão. Acho estranha aquela capa porque o racho da bunda parece estar sumindo, tornando essa bunda quase assexuada, ela em si quase uma metáfora do olho também, uma forma arredondada. Não sei se isso é proposital, trabalhado com Photoshop, ou uma esquisita característica da bunda retratada.
          Não havia entendido o porquê de eu ter conseguido ler a história do olho, mas continuar negando a prosa do Sade. Há uma familiaridade entre os autores, mas pensava que essa diferente reação em relação a autores com temáticas semelhantes poderia ocorrer talvez por Bataille ser mais soft. De certa maneira, isso não deixa de ser verdade. Contudo, o relato do próprio autor comentando sobre sua obra e a criação dela, no capítulo chamado "Reminiscências" (e também em "Plano para uma continuação da História do olho", "W.-C. Prefácio à História do olho" e "Olho") me fez digerir melhor a narrativa porque definitivamente aquilo era sonho, fantasia, tratava-se de um modo de domar os fantasmas do autor. O analista de Bataille sugeriu que escrevesse seus sonhos eróticos e ideias fixas sem barreiras. Ele fez isso, e isso, de certa forma e como ele mesmo diz, o salvou para a vida. Sade fez isso, mas ele andou como um danado por esta terra até o final de seus dias. Para ele a ficção e a literatura se confundiam.
          Bataille se humanizou quando escreveu sobre si mesmo. A ficção dele ganha dimensão quando surge o autor comentando sobre ela, falando sobre histórias que a mim pareceram até mais interessantes que o própria História do olho. Penso que esse livro, publicado sob pseudônimo até o final da vida do autor, foi a carta ao pai de Bataille, e com isso tudo ganha um sentido imenso.
          Há um ensaio de Roland Barthes, um apêndice da edição lida, que é chato (desculpem-me os linguistas, mas quase dormi com tantos termos da linguística que ele usou simplesmente para dizer coisas que eu havia entendido sem complicação), mas diz uma coisa bastante interessante e que me elucidou sobre a comparação entre Sade e Bataille: a prosa de Sade utiliza mais o encadeamento sintagmático, enquanto a de Bataille é uma linguagem mais paradigmática, adentrando no conteúdo e utilizando metáforas e metonímias específicas para o olho/ovo. Talvez esteja por aqui minha repulsa por Sade, a enumeração, variando alguns fatores como posições, combinações, etc., que ele faz de algo limitado por si: o erótico/pornográfico. Em Bataille eu sinto que sua narração direta transcende o próprio significado do que é dito, e isso me dá mais prazer como leitora.
          Do capítulo "Reminiscências", transcrevo:
 
          Por outro lado, às imagens de minhas obsessões associam-se lembranças de outra natureza.
          Nasci de um pai sifilítico (tabético). Ficou cego (já o era ao me conceber) e, quando eu tinha uns dois ou três anos, a mesma doença o tornou paralítico. Em menino, adorava aquele pai. Ora, a paralisia e a cegueira tinham, entre outras, estas consequências: ele não podia, como nós, urinar no banheiro; urinava em sua poltrona, tinha um recipiente para esse fim. Mijava na minha frente, debaixo de um cobertor que ele, sendo cego, não conseguia arrumar. O mais constragedor, aliás, era o modo como me olhava. Não vendo nada, sua pupila, na noite, perdia-se no alto, sob a pálpebra: esse movimento acontecia geralmente no momento de urinar. Ele tinha uns olhos grandes, muito abertos, num rosto magro, em forma de bico de águia. Normalmente, quando urianava, seus olhos ficavam quase brancos; ganhavam então uma expressão fugidia; tinham por único objeto um mundo que só ele podia ver e cuja visão provocava um riso ausente. Assim, é a imagem desses olhos brancos que eu associo à dos ovos quando, no decorrer da narrativa, falo do olho ou dos ovos, e urina geralmente aparece.
          Percebendo todas essas relações, creio ter descoberto um novo elo que liga o essencial da narrativa (considerada no seu conjunto) ao acontecimento mais grave da minha infância.
          [...]
          Uma noite, minha mãe e eu fomos acordados por um discurso que o doente produzia aos urros, no seu quarto: tinha enlouquecido de repente. O médico, chamado por mim, veio imediatamente. Em sua eloquência, meu pai imaginava os acontecimentos mais felizes. Tendo o médico se retirado com minha mãe para o quarto ao lado, o demente berrou com uma voz retumbante:
          - DOUTOR, AVISE QUANDO ACABAR DE FODER MINHA MULHER!
          Ele ria. Essa frase, arruinando os efeitos de uma educação severa, provocou-me, numa terrível hilaridade, a constante obrigação, acatada de forma inconsciente, de encontrar seus equivalente em minha vida e em meus pensamentos. Isso talvez esclareça a "história do olho".

Tuesday, November 27, 2012

Meditação


       Uma sabedoria quase nada, já nula. Pontiaguda.
       Queria dizer mais duas palavras apenas, mas se calou. Nada poderia acrescentar a estados de ânimo esguios, maleáveis, maldizentes.
       Andou quadras a rir-se de cada pessoa que cruzava. O mundo tomava a forma do desespero e da exaltação. Ria-se, ria-se!

       Em frente a uma pequena fonte escondida entre duas árvores, para e larga seus pés na água. Sob as pálpebras que descansam a estrada passa entre ele e um gigante descampado. Não há carros, pessoas. Só ele. Só.

Cocteau

Jean Cocteau pelo fotógrafo George Platt Lynes,
Estados Unidos (1936).

Jean Cocteau, Jean Cocteau, Jean Cocteau.
Três vezes escrevo seu nome. Invoco. 

Cocteau, coquetel.

Bebo-te até me embriagar do sangue-poeta
a corar meu coração.

Thursday, June 28, 2012

As formas da delicadeza

Cacaso na cabeça.
Peguei suas poesias na biblioteca, junto com um exemplar de Sade.
No ônibus, em todos eles, devorei o poeta.
Hoje vou dormir com um poema.

Táxi
O poeta passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante da empregada doméstica sussurrar
em seu pescoço qualquer podridão deste
universo.
Como será o amor das pessoas rudes?
O poeta não se conforma de não conhecer
todas as formas da delicadeza.

Wednesday, June 27, 2012

Cacasiando por aí

Vontade de lero-lero.

Friday, June 15, 2012

Senhora S.


É, Lídia, ela chegou... Nem me lembro bem quando foi. Mas como vou saber? Deveria ter marcado o dia na folhinha? Chegou chegando, como aqueles furacões que despetalam as flores mais bonitas e anunciam um final de outono. Bateu na porta, e deixei de ouvi-la. Foi se infiltrando pelas paredes, congelou-se no refrigerador, formou crostas de gelo.  E nem estava tão frio naquela época do ano. Vai saber os artifícios que usa... Dança com meus sapatos sobre folhas escritas, rasga páginas de livros, anda de salto alto de madrugada – metodicamente, dez passos pra lá, dez pra cá – e grita gritos surdos enquanto os pratos são lavados e na televisão passa um episódio de meu seriado favorito. Qual seriado? Não me lembro. Talvez... não, não me lembro.
Com ela você nunca se acostuma. Sabe como é?  Suportar? Sim, pode ser essa a palavra. Está há dias comigo, companhia penetrante, invencível. Pula dos andares mais altos dos prédios e se estatela lá embaixo, esperando uma esperança para então voar com o vento – uma folha, uma pluma. Assim, quando pensamos estarmos livres de sua presença, eis que surge pela janela.
Seus seguidores estão espalhados por aí. Amadores e profissionais. Como? Ah, não: eu não a admiro. Ela fica comigo porque, porque... Pode ser porque eu esteja lá, vez ou outra andando e pensando na sua presença, disponível. Como saber?... Ainda ontem vi um dos escritos de algum de seus admiradores (apesar de eu desconfiar que ela é quem escreve esses rabiscos nas paredes). Passando pela rua R., li em um muro: “Antes só do que mal acompanhado”.  Pois sim, e quem diria que ela pode ser uma péssima companhia.

Friday, June 08, 2012

Viagem

Avô: vou dar um presente pra ele.
Mãe: não precisa...
Avô: ele merece. O José ganhou no aniversário de 14 anos dele. O Luquinha também vai ganhar, não é, Luquinha?
Menino: eu quero!
Menino: vô, eu quero o salgadinho!
Avô: agora? Você acabou de...
Menino: mas EU quero!
Avô: pode dar pra ele. Mas come direitinho. Nâo vai deixar cair... Ah, assim não. Precisa ter educação.
Menino: mãe, deixa eu mexer no celular?
Mãe: aí tá.
Avô: olha que bonitinho, já sabe mexer no celular.
Mãe: é um iPod. Comprei do João.
O menino fica olhando meu livro. Larga o iPod e pede um caderno pra mãe. Ela dá e ele começa a escrever. Mostra ao avô.
Avô: já sabe escrever o nome! E direitinho!
Ele olhava eu lendo e se sentia superior por estar escrevendo.
Avô: Luquinha, então, você vai querer ir ao McDonald no seu aniversário que nem o José foi no dele? Você pode comer um lanche maior!
Menino: quero!!!
Eles desceram na estação de trem Francisco Morato. O avô carrega os saquinhos de supermercado, a mãe fala ao celular e o menino, de mãos dadas com o avô, arrasta os chinelos enquanto ouve pra tomar cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.

Friday, June 01, 2012

I have a dream

Esses dias fiquei superfeliz porque sonhei. Não me lembrava quase nada do sonho, mas meu encantamento era somente o fato de ter sonhado. Isso não é horrível? Em que tempo paramos de sonhar?

Ontem efetivamente percebi que sinto estar com cordas me amarrando no meio acadêmico. Pensava em fazer mestrado, doutorado e tudo mais relacionado a algo que realmente amasse. Então percebi que as amarras das atividades institucionalizadas encaretam qualquer possibilidade de criação (com boas e raras exceções, mas eu não seria exceção).

Um professor muito bom que tive de Literatura Brasileira um dia nos disse que havia um aluno dele, do segundo ano, que apresentou um trabalho brilhante de final de semestre. Outro professor, o Villaça, pegou esse mesmo aluno depois de dois anos. Eles esperavam um trabalho maravilhoso novamente, a descoberta de uma revelação. Então verificam que o trabalho é bom, mas falta brilho. O Murilo, esse meu professor, disse: "ele perdeu o brilho com o tempo. A vida acadêmica pode fazer isso com muitas pessoas...". E, provavelmente para ponderar e não desanimar os alunos, ele completou: "ou talvez esse aluno só precisou trabalhar mais ou algo parecido. Falta de tempo".

Esse fato me martelou durante anos. Lutei contra ele, neguei o esmaecimento da criação pela ligação com o meio acadêmico. Mas ontem apresentei um trabalho. Agora, quarto ano da faculdade. Pesquisa ótima (pensando no prazo e que se trata de algo produzido para gradução), texto e raciocínio bem estruturados, apresentação pesada, mas bonita (era um seminário sobre uma obra). Apesar de tudo isso, apesar de somente isso, faltava 1% que torna a vida interessante: o talento, o brilho, a descoberta e o prazer de fazer algo brilhante.

Vejo os professores sonolentos, dando aulas para turmas sonolentas. O ensino perdeu o encanto, as pessoas pararam de sonhar e, os poucos que sonham, são estranhos, estrangeiros que perambulam por corredores e encontram alento somente em seus pensamentos, nos pensamentos daqueles que estão longe ou mortos ou no encontro com outros (raríssimos) sonhadores.

Ontem ainda vi uma ex-colega de trabalho, sentada em uma das cadeiras feias e jogadas pelos corredores da Letras. Ela estava linda em seus pensamentos, mas com uma tristeza insuportável pra juventude dela. Sempre dizemos "oi" e por aí fica. Mas então aquele retrato fez com que eu parasse e puxasse papo com ela. Falamos de nossos sonhos antigos, como duas pessoas respeitáveis que pagam seus impostos e frequentam burocraticamente as aulas para obter um diploma.

Hoje, entendo que é quase insuportável viver burocraticamente. É preciso urgentemente fazer tudo certinho para cumprir todos os créditos necessários e sair desse lugar que nos dá maravilhas de outros e nos tornam pessoas que entendem as maravilhas dos outros, repetidores de teorias e amantes frígidos da literatura.

Um porcento pode ter o peso de um mundo inteiro. Criar: esse é o verbo, esse é o brilho.

Tuesday, January 03, 2012

Hoje eu tive um pesadelo em que eu varria loucamente um chão claro e alguém me dizia para eu varrer melhor o chão, tirar a sujeira de determinado canto. Eu esfregava mais loucamente a vassoura, mas não via sujeira. Perguntava a mim mesma: "Cadê a sujeira, cadê?". Estava cansada, exausta. Acordei exaurida. Fiquei pensando em quanto chão eu devo varrer sem estar sujo. Much ado about nothing.

Ou pior, quanto sujeira ainda não consigo enxergar...

Sunday, January 01, 2012

Sair do armário

Minha promessa para 2012 é buscar coragem para assumir que não sou uma party girl, que não atualizo o Facebook com fotos de um monte de gente rindo e que, apesar disso, tenho ótimos amigos e amigas com essa energia.

Quero poder dizer com naturalidade que me diverti pra caramba hoje, dia 1 de janeiro de 2012, tentando encontrar o significado de uma anotação marginal abreviada, em latim, de um manuscrito de 1580. Assumir que vez ou outra fujo para o banheiro com o único objetivo de ler algumas páginas de The Machine Stops, que gosto de descobrir documentações que embasam teorias conspiratórias. E essas coisas me deixam feliz, ainda que não pareça ser o padrão de felicidade esperado por todos. Ah! Sou meio nerd, e daí? Não aquele talentoso que faz grandes descobertas ou desenvolve complexas teorias, mas algo no meio do caminho entre "todos são assim" e "sou um nerd". Nada especial. E nem precisa ser.

Ufa! Bom ano-novo!

Friday, September 09, 2011

A bile negra

Melancholia, do Lars Von Trier:
" - The Earth is Evil." (Justine, aquela que é justa, para Claire)

Lembranças